

Laroiê, Exuberantes Cazumbas
Laroiê,
peço licença aos Exuberantes Cazumbas,
para adentrar poeticamente seu mundo,
universo mágico e encruzilhadas.
Convido cada visitante a confabular sobre a sinergia poética e a semelhança mítica entre Exu e o Cazumba, pois são seres de múltiplas possibilidades e caminhos,abertos a mudanças e aprendizados.
“Cazumba brinca no meio do mato,
recolhe a natureza no peito,
filho do verão
pássaro da floresta,
bicho solto
que sabe voar
por terreiros da Baixada
e por todo Maranhão,
o seu mundo se faz na geografia do brincar,
a sua imaginação é fruto do desejo e da ternura
de se jogar e rolar pelo chão
Cazumba não desejou a língua do boi,
mas come com farinha a brincadeira do Bumba meu Boi”.
Peço, gentilmente, que aceite o convite para imersão no exuberante mundo dos Cazumbas.
Vamos construir esta fábula coletivamente?
01- Frutos das Encruzilhadas
Nessa exposição apresento minha híbrida vivência/pesquisa artística de imersão no universo místico do Cazumba, um brincante feérico do Bumba meu Boi do Maranhão, por meio de fotografias documentais e experimentais, assim como obras multimídias: videoarte, desenhos, performance, paisagens sonoras, músicas, esculturas e obras com medidas de acessibilidade, para dialogar com diferentes públicos.
02- Como vejo o Cazumba
"O Cazumba tem a função de chegar na frente e abrir o terreiro, o cordão por onde o Boi vai passar". (Mestre Abel Teixeira)
O Cazumba é um ser encantado que usa careta, lembrando algumas vezes bichos da fauna brasileira. Sua roupa é conhecida como bata ou farda, sendo algumas bordadas com imagens de santos católicos ou entidades de religiões afro-brasileira, o qual o “brincante de Cazumba” é devoto. Antigamente eram feitas apenas de saco de estopa.
O Cazumba com seu chocalho é parte da musicalidade do Bumba meu boi de “sotaque da Baixada”. O seu andar carrega consigo um gingado que o faz balançar os quadris, amarrando um cofo na cintura pela parte de dentro da bata, realçando seu rebolado.
É comum andarem em turma e serem os primeiros a entrar onde o Bumba meu boi de “sotaque da Baixada vai se apresentar”, por isso os intitulo exuberantes, analogia com o orixá Exu, responsável por iniciar as atividades ritualísticas nos cultos religiosos de matrizes afro-brasileiras.
03- Ebó Artístico
A Exposição Exuberantes Cazumbas aborda o universo onírico do brincar de Cazumba, trazendo obras que provocam o imaginário lúdico, não sendo necessariamente obras explicativas ou ilustrativas, mas reflexivas, questionadoras, interativas e dinâmicas, tendo em sua expografia uma permissividade para interagir com o público.
O recorte curatorial desta exposição é compartilhado, visando permitir uma construção coletiva e crítica. Com o intuito de desconstruir 'estigmas folclóricos' surgidos, ao longo dos últimos anos, acerca da brincadeira do Bumba meu Boi e de seus respectivos brincantes." Por isso, a necessidade de rodas de conversas com Mestres e Mestras da cultura popular maranhense, para assim imaginarmos coletivamente caminhos possíveis contracoloniais e antirracistas.
Proponho que o nosso espaço expositivo na galeria Floriano Teixeira dentro do Museu Histórico e Artístico do Maranhão funcione como uma “Zona Autônoma Temporária da Arte”, para engendrarmos uma rede afetiva e poética ligada ao brincar do Cazumba, ressignificando o tradicional espaço museológico, e sendo um convite para confabularmos "novos mundos possíveis", reais e imaginários. Revigorando o espírito da criança que existe dentro de todos nós e potencializando a ancestral brincadeira do Bumba meu Boi, assim como sua livre geografia do brincar.
O Bumba Meu Boi faz parte da cultura afro-indígena e segundo relatos históricos realizados no Maranhão desde o século XVIII, tem sofrido, no decorrer dos anos, diversas perseguições e preconceitos, até se tornar Patrimônio Cultural Imaterial, título reconhecido pela Unesco em 2019.
Reconhecer os saberes populares e seus respectivos Mestres e Mestras é, também, uma das provocações da Exposição Exuberantes Cazumbas, revigorando o livre espírito dos territórios quilombolas maranhenses, que sabem manter suas tradições culturais e religiosas com muita fé e tradição.
No decorrer dessa minha vivência/pesquisa artística, sou extremamente grato pelos ensinamentos, cuidados e afetos recebidos de integrantes do Boi da Floresta, localizado no Quilombo Urbano da Liberdade- São Luís- Ma, assim como em diversos grupos de Bumba meu Boi de sotaque da Baixada, e seus respectivos Mestres e Mestras.
Para finalizar deixo um enigma ao público: "Se muitas vezes ouvimos falar que o Cazumba não é gente nem bicho, então o que ele é ?"
Poesia e texto do artista Tairo Lisboa.
